Saudade de quem já partiu…

É inevitável. Num determinado momento de nossas vidas, que sempre desejamos seja adiado ad eternum, alguém muito próximo vem a descansar. Quem já vivenciou, sabe o quanto é difícil descrever a sensação de perda, de vazio.

As horas reservadas às últimas homenagens, além das lembranças dos melhores momentos vividos, trazem a certeza da fragilidade física de cada um de nós. A sensação de impotência também é sentida.

Contudo, a vida, ou demais vidas, continua. O tempo passa. Dias, semanas, meses e anos. E sempre acompanhada da tal saudade.

Escrevo este texto na data de aniversário de falecimento da mãe de um grande amigo, irmão por opção, e que, mui injustamente, insiste em me descrever como ex-amigo.

Além disso, no último domingo, seria comemorado o aniversário de 97 anos de um senhor fantástico, falecido há quatro anos. Meu avô.

Numa daquelas coincidências difíceis de explicar, os jazigos das duas pessoas mencionadas são contíguos, dentre as milhares existentes no cemitério de Santo Antônio. Vai entender.

Pois é.

O senhor em questão, que aniversaria no último dia 27, era meu avô e padrinho. Eu, o neto mais velho. Para a identificação ser ainda maior, herdei seu nome, motivo, claro, de muito orgulho e responsabilidade. Contudo, questionei na infância essa escolha dos meus pais.

Esse questionamento é normal quando se é batizado com um nome pouco usual. Naquela época, eu com sete ou oito anos, só tinha conhecimento de outro Celio, além de mim e do meu avô: um jogador de futebol que, salvo engano, jogava pelo Palmeiras. E só.

O Dr. Celio, que além de avô e padrinho, era dentista e professor, e natural de São Pedro do Itabapoana, faleceu na véspera do Dia dos Pais. Conhecido dia de celebração e festa, naquele ano foi a data do velório do meu segundo pai.

Comentei sobre a dor da perda (e ela existe, claro) mas, logo após a partida do Celio mais velho não senti desorientação, desespero, depressão, descontrole, nem nada tão perto. Mas confesso que, enquanto ele era vivo e pensava no inevitável momento de sua partida, achava que iria ficar um tempo sem chão.

A verdade é que aconteceu justamente o contrário. Lembro-me da ligação do meu chefe, em meio a palavras de conforto e solidariedade, afirmando que eu poderia ficar alguns dias mais em casa, além dos concedidos legalmente. Ele sabia da ligação entre os xarás.

Contudo, fui ao velório no Dia dos Pais… e na terça-feira, dois dias depois, resolvi voltar a trabalhar. Nada de prostração. Ao contrário, emergiram, com a saudade, profundos sentimentos de agradecimento pelo exemplo de vida. Energia positiva e produtiva.

Ele e minha avó (outra alma elevadíssima) foram casados durante 63 anos. Vivia na casa deles e só presenciei uma pequena discussão: foi quando, certa vez, estávamos no carro e o tom da conversa se elevou enquanto decidiam se iriam ou não na casa de um parente no final de semana seguinte. Foi tão inusitado que nunca esqueci. E, mesmo neste momento, o absoluto respeito entre o casal foi facilmente mantido.

Correto e dedicado profissional, esposo, pai e avô atencioso, carinhoso e preocupado com a educação e formação de seus descendentes. Alegre e brincalhão, tinha o hábito de anotar em um caderno anedotas para depois contar aos netos. Até seus últimos dias, tinha o hábito de resolver as palavras cruzadas d’O Globo.

E a simplicidade? Simpático no trato com as pessoas, era humilde na mesma proporção que valorizava e apoiava os demais. O engraçado era que, mesmo neste clima de informalidade, meu pai nunca, nunca deixava de se referir a ele como o Doutor Celio. É, apesar da proximidade e descontração, alguns pilares de educação conservadora nunca foram afastados. Era normal naquela época.

O que dizer, então, da retidão ética e moral? Um exemplo! Ao conviver com ele durante tanto tempo, fica muito fácil entender que só existe um caminho para viver a vida: honestidade, muito estudo e trabalho.

Cabe ressaltar que nunca considerei o fato de ter o mesmo nome um peso e, sim, uma grande honra. Contudo, além do agradecimento por ter vivido momentos especiais, veio junto o questionamento sobre o grau de responsabilidade de ter que colocar em prática (sem ele!) todo o aprendizado adquirido.

Afinal, aos olhos do neto que o tentava imitar, ele era infalível. E aí, ao me olhar no espelho, como poderia ter a mesma importância para minhas filhas e futuros netos? Tenho minhas imperfeições, incoerências, dúvidas…

Bom, foi só encarar a realidade. Ou seja, mesmo ele, que via como ícone, tinha seus defeitos, suas imperfeições e, certamente, nem tinha a pretensão de ser esse herói para as gerações seguintes. Simplesmente viveu a vida como deve ser vivida. De forma correta, encontrando a buscada felicidade nos pequenos e cotidianos momentos com amigos e família.

E é assim que temos que nos enxergar. Alguém que será referência para os seguintes simplesmente por estar sempre tentando fazer a coisa certa. Só assim deixaremos saudade.

P.S.: desde sua concepção, a idéia era que o Ponte da Passagem não fosse um blog pessoal, tal qual um diário. Faço uma pequena concessão neste post por acreditar que, independente dos nomes envolvidos, todos nós, ou já perdemos, ou iremos, infelizmente, dar adeus a alguém muito querido. Fica a saudação indistinta a todos que compartilham do desejo de agradecer e homenagear.

About these ads

Publicado em 29/11/2011, em Cotidiano e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. É muito difícil lembrar da pessoa querida que partiu para o plano superior, mas existe também a esperança que este cumpriu sua missão aqui no plano terrestre e que por mais triste que seja a dor de perder alguém querido, sabemos que a morte é uma coisas justa que existe na vida, pois dela minguem escapa, seja rico, seja pobre cego aleijado ou sadio, assim precisamos viver com dignidade porque do outro lado da vida existe um plano melhor, talvez seja isso que nos consola e nos da força para suportar a dor da perda….

  2. Que historia, e que exemplo de carinho e afeto por uma pessoa tao querida…
    É uma parte importantissima que sempre devemos ficar atentos, e como dizia renato russo.. e preciso amar as pessoas como se nao houvesse amanha…
    todos nós, ou já perdemos, ou iremos, infelizmente, dar adeus a alguém muito querido…
    ninguem sabe o dia nem a hora… mas essa e uma realidade verdadeira e consecutivel.

    grande abraço!

    parabens pelo a historia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: